M. sentia o terrível cheiro amargo de uma vida em decomposição. Um cheiro que lhe provocava a ânsia das recordações de um passado longínquo, e que o transportava para os tempos de estudante de medicina, ainda nos tempos áureos da sua juventude.
Tinha vivido em contacto permanente com a morte, morte essa, que teimava em lhe passar ao lado, sem lhe tocar, ou aproximar, sequer. Encarava tudo, com uma perfeita naturalidade, como se isso não causasse o menor transtorno ou impressão. Fazia parte da sua rotina, como que fosse uma simples refeição, ao o acto mais natural, de adormecer de frente ao televisor, que continuava transmitindo os seus programas vulgares e repetitivos, pelo calor da noite.
A televisão, era assim a sua única companhia, a única vida que existia em contacto com a sua. Fazia parte da sua rotina, tudo o mais era ocasional.
Os encontros com os colegas, eram cada vez mais raros. Os amigos, que ainda não conheceram a morte, viam-no com menos frequençia.
O trabalho, esse também era menos intenso, porque, lhe diziam, teria, mais cedo ou mais tarde que ceder o seu lugar às gentes novas que iam chegando, e que traziam consigo novas ideias e conceitos.
Mas também, ia perdendo o seu interesse por uma medicina em constante evolução, mas que não conseguia acompanhar o avanço das novas doenças. A cada passo da medicina, a doença avançava dois, era uma luta desigual, onde muitas vezes vencia a morte, com o seu poder inquestionável, e contra a qual, o homem não podia.
Andava farto de questionar a morte, tentando encontrar as respostas para o fim da vida. Mas a morte não lhe respondia.
A morte teimava em brincar com ele, escondendo-se, e não o deixando aproximar. Na sua timidez, ele não a temia. Tinha com ela uma relação de amor- ódio, que nem mesmo ele conseguia explicar.
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