M. sentia o terrível cheiro amargo de uma vida em decomposição. Um cheiro que lhe provocava a ânsia das recordações de um passado longínquo, e que o transportava para os tempos de estudante de medicina, ainda nos tempos áureos da sua juventude.
Tinha vivido em contacto permanente com a morte, morte essa, que teimava em lhe passar ao lado, sem lhe tocar, ou aproximar, sequer. Encarava tudo, com uma perfeita naturalidade, como se isso não causasse o menor transtorno ou impressão. Fazia parte da sua rotina, como que fosse uma simples refeição, ao o acto mais natural, de adormecer de frente ao televisor, que continuava transmitindo os seus programas vulgares e repetitivos, pelo calor da noite.
A televisão, era assim a sua única companhia, a única vida que existia em contacto com a sua. Fazia parte da sua rotina, tudo o mais era ocasional.
Os encontros com os colegas, eram cada vez mais raros. Os amigos, que ainda não conheceram a morte, viam-no com menos frequençia.
O trabalho, esse também era menos intenso, porque, lhe diziam, teria, mais cedo ou mais tarde que ceder o seu lugar às gentes novas que iam chegando, e que traziam consigo novas ideias e conceitos.
Mas também, ia perdendo o seu interesse por uma medicina em constante evolução, mas que não conseguia acompanhar o avanço das novas doenças. A cada passo da medicina, a doença avançava dois, era uma luta desigual, onde muitas vezes vencia a morte, com o seu poder inquestionável, e contra a qual, o homem não podia.
Andava farto de questionar a morte, tentando encontrar as respostas para o fim da vida. Mas a morte não lhe respondia.
A morte teimava em brincar com ele, escondendo-se, e não o deixando aproximar. Na sua timidez, ele não a temia. Tinha com ela uma relação de amor- ódio, que nem mesmo ele conseguia explicar.
sábado, 8 de março de 2008
sexta-feira, 7 de março de 2008
Dublin...
A neve caía sobre uma Dublin adormecida.
Mike, sobre a sua cadeira de baloiço, contemplava a neve que se precipitava de um céu escuro e triste, sobre uma cidade esquecida pelo frio de mais um inverno rigoroso, como que hibernada e parada no tempo, à espera que o fim do inverno a acorda-se da sonolência profunda. Dando mais um trago no ´whisky` novo, contemplava o deserto branco da praça junto à ´Cristchurch cathedral`,por vezes interrompido por alguém que passava, e que por vezes parava, e batia uma qualquer fotografia, para levar consigo a memória de uma passagem fugaz, junto ao monumental monumento, com suas portas imponentes, ou para lembrar as correntes amenas do rio LIffey, atravessado pelas pontes, que, ordenadamente iam unindo as suas margens, ao longo do seu leito.
Era assim Dublin, com a sua mística impune ao longo dos tempos, vivendo à sombra de um passado, habitando de frente ao vizinho, a quem um dia viveu em em submissão, mas de quem se havia divorciado na segunda década do século vinte.
Mike guardava as suas memórias, de uma cidade que amava, e que também era parte de si. Ali, tinha vivido desde os seus vinte anos, altura em que decidiu abandonar as lides da família, no interior e aventurar-se na cidade grande, onde, lhe diziam, se concentrava o mundo. Havia muito tempo que se tinha fartado de longford, onde a vida passava, sem que se desse conta, e onde os dias eram sempre iguais. Depressa enjoou as lides agrícolas do pai, Sir Robinson, homem respeitado pelos lados de longford.
Sir Robinson, sempre procurou o melhor para os seus dois filhos, dando-lhes uma educação acima da média. Em casa, nada faltava. Existia do melhor do campo, e os almoços eram fartos, e a família não era privada de nada.
Mike tinha, da sua juventude, as melhores recordações. Sentia por vezes, saudades dos tempos em que cavalgava, pelos campos. De quando se deslocava à feira, em longford, para mostrar os seus cavalos, mesmo sem ter intenções de os vender. De quando ia às caçadas aos fins de semana, do ar puro dos campos e do verde de suas paisagens. Era um sentimento que o perseguia desde os tempos que chegou a Dublin, perseguindo os seus sonhos de menino, que no seu interior ainda era.
Chegou à cidade por volta de quarenta. Trabalhou na construção da cidade, distribuiu leite pelas ruas, trabalhou na industria têxtil. Fez de tudo um pouco para ganhar a vida. Adaptou-se às duras condições da cidade. Trabalhou em troca de comida e dormida, quando a vida era incerta devido aos conflitos do mundo, dormiu nos locais mais inóspitos e vagueou pelas ruas incertas, à procura de algo, que por vezes nem tinha certeza do quê.
A vida da cidade, jamais lhe teria sido fácil, se a certa altura da vida, não tivesse encontrado Rose, uma mulher com cerca de trinta anos, por essa altura dois anos mais velha do que ele. Com ela casou. Com ela, continuou a seguir os seus sonhos, sonhos que não seriam mais só dele, mas que passavam a ter mais sentido, precisamente por isso, porque eram divididos e partilhados.
Rose, deu então um novo sentido à sua vida. Conseguiu trabalho para ele, na empresa têxtil, onde trabalhava, e que tinha reaberto as portas com o fim da guerra, e devolveu-lhe a esperança num futuro que parecia muito incerto, e que não o fizera regressar ao passado, apenas pelo seu orgulho.
Como chegaria perto de sua família, no interior, e diria que a sua vida era um fracasso? Que os seus sonhos não passavam de equívocos! Que a vida na grande cidade não passava de uma miragem da sua cabeça!
Com o aparecimento de Rose, passou também a acreditar em Deus. O mesmo Deus que antes lhe parecia algo distante, tinha colocado essa mulher na sua vida para o salvar de todos os traumas e desalentos. Para,com ele enfrentar as lutas.
Liffey, o rio que corria escuro, e imponente, estava ao fundo, atravessado pelas suas pontes ordenadas. Deu mais um travo no seu whisky.
Sentiu-se só, na sua cadeira de baloiço, preso apenas às recordações de um passado que teimava em acompanha lo. Rose, a sua melhor recordação, havia partido três anos antes, existindo apenas no seu pensamento. Já havia esgotado toda a sua inspiração, em poemas a ela dedicados. Tinha sido também ela que lhe tinha implantado o gosto pela escrita, e o tinha motivado, apesar de algum lhe dizer que um escritor, é alguém que vive num outro mundo, um mundo desconhecido, e que só nasce com a morte.
Nunca conseguiu entender. Rose dizia-lhe: «Não ligues, é conversa de alguém a quem lhe foram roubados os sonhos, e isso sim é uma vida sem nexo».
As suas palavras acabavam sempre, por lhe transmitir um outro ânimo, e o empurrar.
Deu o ultimo travo no seu copo de whisky, numa altura em que parou de nevar. Resolveu então enviar os seus versos e poemas, que havia guardado na gaveta da sua velha secretária. Eram poemas sobre Rose, a cidade de Dublin, o seu rio e a sua cidadela de Longford. Poemas que, a sua Rose, em dias como este, não se lhe cansava de ler e reler. Ganhavam vida quando pronunciados por aquela vós suave, pura, que apesar dos anos, continuaria sempre com o mesmo brilho, até que Deus a resolveria levar para junto dele, talvez para que lhe recitasse os seus poemas.
Poemas de amor e saudade, envolvidos por vezes por um certo mistério.
Era uma vida em resumo, numas simples folhas de papel, amarelecido pelo tempo.
A vida era estranha! O que para ele eram momentos de reflexão, para outros, poderiam ser de ilusão, de nostalgia. Deu por ele a pensar o quão diferente e igual é o se humano. Como tudo na vida serve para traçar um destino, um rumo. Com os seus oitenta e cinco anos, jamais se tinha dado conta disso.
Mike, sobre a sua cadeira de baloiço, contemplava a neve que se precipitava de um céu escuro e triste, sobre uma cidade esquecida pelo frio de mais um inverno rigoroso, como que hibernada e parada no tempo, à espera que o fim do inverno a acorda-se da sonolência profunda. Dando mais um trago no ´whisky` novo, contemplava o deserto branco da praça junto à ´Cristchurch cathedral`,por vezes interrompido por alguém que passava, e que por vezes parava, e batia uma qualquer fotografia, para levar consigo a memória de uma passagem fugaz, junto ao monumental monumento, com suas portas imponentes, ou para lembrar as correntes amenas do rio LIffey, atravessado pelas pontes, que, ordenadamente iam unindo as suas margens, ao longo do seu leito.
Era assim Dublin, com a sua mística impune ao longo dos tempos, vivendo à sombra de um passado, habitando de frente ao vizinho, a quem um dia viveu em em submissão, mas de quem se havia divorciado na segunda década do século vinte.
Mike guardava as suas memórias, de uma cidade que amava, e que também era parte de si. Ali, tinha vivido desde os seus vinte anos, altura em que decidiu abandonar as lides da família, no interior e aventurar-se na cidade grande, onde, lhe diziam, se concentrava o mundo. Havia muito tempo que se tinha fartado de longford, onde a vida passava, sem que se desse conta, e onde os dias eram sempre iguais. Depressa enjoou as lides agrícolas do pai, Sir Robinson, homem respeitado pelos lados de longford.
Sir Robinson, sempre procurou o melhor para os seus dois filhos, dando-lhes uma educação acima da média. Em casa, nada faltava. Existia do melhor do campo, e os almoços eram fartos, e a família não era privada de nada.
Mike tinha, da sua juventude, as melhores recordações. Sentia por vezes, saudades dos tempos em que cavalgava, pelos campos. De quando se deslocava à feira, em longford, para mostrar os seus cavalos, mesmo sem ter intenções de os vender. De quando ia às caçadas aos fins de semana, do ar puro dos campos e do verde de suas paisagens. Era um sentimento que o perseguia desde os tempos que chegou a Dublin, perseguindo os seus sonhos de menino, que no seu interior ainda era.
Chegou à cidade por volta de quarenta. Trabalhou na construção da cidade, distribuiu leite pelas ruas, trabalhou na industria têxtil. Fez de tudo um pouco para ganhar a vida. Adaptou-se às duras condições da cidade. Trabalhou em troca de comida e dormida, quando a vida era incerta devido aos conflitos do mundo, dormiu nos locais mais inóspitos e vagueou pelas ruas incertas, à procura de algo, que por vezes nem tinha certeza do quê.
A vida da cidade, jamais lhe teria sido fácil, se a certa altura da vida, não tivesse encontrado Rose, uma mulher com cerca de trinta anos, por essa altura dois anos mais velha do que ele. Com ela casou. Com ela, continuou a seguir os seus sonhos, sonhos que não seriam mais só dele, mas que passavam a ter mais sentido, precisamente por isso, porque eram divididos e partilhados.
Rose, deu então um novo sentido à sua vida. Conseguiu trabalho para ele, na empresa têxtil, onde trabalhava, e que tinha reaberto as portas com o fim da guerra, e devolveu-lhe a esperança num futuro que parecia muito incerto, e que não o fizera regressar ao passado, apenas pelo seu orgulho.
Como chegaria perto de sua família, no interior, e diria que a sua vida era um fracasso? Que os seus sonhos não passavam de equívocos! Que a vida na grande cidade não passava de uma miragem da sua cabeça!
Com o aparecimento de Rose, passou também a acreditar em Deus. O mesmo Deus que antes lhe parecia algo distante, tinha colocado essa mulher na sua vida para o salvar de todos os traumas e desalentos. Para,com ele enfrentar as lutas.
Liffey, o rio que corria escuro, e imponente, estava ao fundo, atravessado pelas suas pontes ordenadas. Deu mais um travo no seu whisky.
Sentiu-se só, na sua cadeira de baloiço, preso apenas às recordações de um passado que teimava em acompanha lo. Rose, a sua melhor recordação, havia partido três anos antes, existindo apenas no seu pensamento. Já havia esgotado toda a sua inspiração, em poemas a ela dedicados. Tinha sido também ela que lhe tinha implantado o gosto pela escrita, e o tinha motivado, apesar de algum lhe dizer que um escritor, é alguém que vive num outro mundo, um mundo desconhecido, e que só nasce com a morte.
Nunca conseguiu entender. Rose dizia-lhe: «Não ligues, é conversa de alguém a quem lhe foram roubados os sonhos, e isso sim é uma vida sem nexo».
As suas palavras acabavam sempre, por lhe transmitir um outro ânimo, e o empurrar.
Deu o ultimo travo no seu copo de whisky, numa altura em que parou de nevar. Resolveu então enviar os seus versos e poemas, que havia guardado na gaveta da sua velha secretária. Eram poemas sobre Rose, a cidade de Dublin, o seu rio e a sua cidadela de Longford. Poemas que, a sua Rose, em dias como este, não se lhe cansava de ler e reler. Ganhavam vida quando pronunciados por aquela vós suave, pura, que apesar dos anos, continuaria sempre com o mesmo brilho, até que Deus a resolveria levar para junto dele, talvez para que lhe recitasse os seus poemas.
Poemas de amor e saudade, envolvidos por vezes por um certo mistério.
Era uma vida em resumo, numas simples folhas de papel, amarelecido pelo tempo.
A vida era estranha! O que para ele eram momentos de reflexão, para outros, poderiam ser de ilusão, de nostalgia. Deu por ele a pensar o quão diferente e igual é o se humano. Como tudo na vida serve para traçar um destino, um rumo. Com os seus oitenta e cinco anos, jamais se tinha dado conta disso.
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